Foragido da justiça brasileira aparece em campanha do filho e expõe esconderijo na Bolívia
Por Redação | Ponta Porã, MS / Puerto Quijarro, Bolívia
Por anos, Ybar Antelo Dorado construiu com cuidado sua invisibilidade: trocou a vida pública pelo anonimato e tentou se apagar do radar das autoridades - pois um mandado de prisão ativo expedido pela Justiça Federal brasileira, acusações graves de tráfico internacional de drogas são motivos de sobra para se manter longe dos holofotes. E tudo estava funcionando bem, até o dia em que seu rosto apareceu numa imagem publicada nas redes sociais durante a campanha política do filho. A foto, compartilhada em um post da campanha de Sócrates Antelo Francoso, mostrava o pai ao lado do candidato sem qualquer sinal de preocupação.
A publicação circulou rapidamente e chegou ao conhecimento de investigadores, reacendendo o alerta sobre um homem com um histórico criminal dos dois lados da fronteira. Ybar continua livre — mas agora sabe-se exatamente onde ele está: em Puerto Quijarro, cidade boliviana colada em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. A mesma cidade onde foi prefeito, a mesma cidade onde foi preso uma primeira vez - e da qual nunca saiu de verdade.
“Cumpadre” no Brasil, “Babalu” na Bolívia
Dentro da organização criminosa investigada pela Polícia Federal brasileira, Ybar é conhecido como "Cumpadre" — apelido que, no universo do crime organizado, carrega peso hierárquico. Remete a alguém de confiança, com autoridade para articular pessoas e fechar acordos. Não é o nome de quem está na base da cadeia.
No cotidiano de Puerto Quijarro, porém, poucos o associam a esse apelido. Por lá, ele circula como "Babalu" — nome com o qual frequenta estabelecimentos locais e, segundo informações obtidas pela reportagem, mantém contato com pessoas ligadas ao tráfico que opera na região fronteiriça. Dois apelidos, dois mundos — mas um único mandado de prisão expedido pela Justiça Federal brasileira.
Uma Carreira Política Construída na Bolívia
Ybar Antelo Dorado nunca viveu no Brasil. Sua vida inteira foi construída do lado boliviano da fronteira — e foi lá que construiu também uma carreira política de peso. Chegou ao posto mais alto da administração local ao ser eleito prefeito de Puerto Quijarro, cidade estratégica no corredor do narcotráfico boliviano, às margens da ferrovia que liga o país ao Brasil. Depois, alçou voo ainda mais alto: tornou-se assembleísta pelo departamento de Santa Cruz — o equivalente boliviano de deputado estadual numa das regiões mais ricas e influentes do país.
São credenciais que, em qualquer outro contexto, descreveriam um político regional bem-sucedido. No caso de Ybar, essa mesma trajetória é vista pelos investigadores brasileiros sob outra perspectiva: a de alguém que construiu, ao longo de anos no poder, uma rede de relações e influências que serviu também aos seus interesses no crime organizado. Ter sido o principal gestor de Puerto Quijarro significa, na prática, conhecimento profundo da logística local, das rotas de passagem e das pessoas que controlam cada pedaço daquele território fronteiriço.
Preso na Bolívia em 2011 — e Solto para Voltar ao Cargo
O Brasil não foi a primeira Justiça a chegar até Ybar Antelo Dorado: em outubro de 2011, enquanto ainda exercia o mandato de prefeito de Puerto Quijarro, as autoridades bolivianas já bateram à sua porta.
A FELCN — Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico da Bolívia — e o Ministério Público boliviano realizaram uma operação de grande porte: sete imóveis de sua propriedade foram alvo de buscas e apreensões, e seis funcionários municipais e empregados de seus negócios particulares foram detidos. A acusação era de enriquecimento ilícito por associação com o narcotráfico — um caso que a imprensa boliviana chegou a chamar de "narcoalcalde".
Ybar desapareceu por uma semana. Depois, apresentou-se voluntariamente à Fiscalía de Puerto Quijarro em 18 de outubro de 2011, foi detido e escoltado pela FELCN até Santa Cruz de la Sierra, onde compareceu perante o Juiz do Distrito, Esteban Equez. Por ordem judicial, foi enviado à Penitenciária de Palmasola — a maior prisão de Santa Cruz — em prisão preventiva, enquanto as investigações avançavam.
Aqui, porém, a história dá uma reviravolta que diz muito sobre o peso político do personagem: Ybar saiu da prisão, o processo boliviano não resultou em condenação e ele retornou ao cargo de prefeito de Puerto Quijarro. Registros oficiais mostram que ainda em 2018 ele assinava leis municipais como chefe do executivo local — ou seja, sobreviveu juridicamente à crise boliviana e continuou governando a cidade como se nada tivesse acontecido.
O Brasil Entra em Cena
Foi justamente nesse período — quando Ybar ainda era prefeito de Puerto Quijarro — que a Justiça Federal brasileira avançou sobre ele. Em agosto de 2018, a 1ª Vara Federal de Ponta Porã expediu o mandado de prisão preventiva no âmbito da Operação Elba, investigação da Polícia Federal sobre tráfico internacional de drogas na fronteira do Mato Grosso do Sul.
As acusações brasileiras são enquadradas em três artigos da Lei de Drogas e revelam um papel de destaque dentro da organização: responde por tráfico de drogas, por integrar associação criminosa voltada ao tráfico e por financiamento das atividades do grupo — este último, o mais grave, com pena que pode chegar a 20 anos de prisão. Juntas, as três acusações apontam para alguém que não estava nas pontas da operação, mas em seu núcleo de comando e financiamento.
Com o mandado de prisão brasileiro expedido (válido até o ano de 2031) e a pressão crescente, Ybar deixou a prefeitura e passou a viver como figura privada — ainda em Puerto Quijarro, mas fora dos holofotes, sob o codinome "Babalu".
Puerto Quijarro: Em casa e fora do alcance
Há uma ironia pesada na situação atual de Ybar: ele está escondido na cidade onde foi prefeito, entre pessoas que o conhecem há décadas. Não fugiu para o anonimato de uma metrópole distante. Continua em casa — e é exatamente isso que, paradoxalmente, dificulta sua prisão, vivendo impunemente.
A documentação boliviana acrescenta uma camada jurídica ao problema. Pela legislação da Bolívia, cidadãos nacionais não podem ser extraditados. O caminho para trazê-lo ao Brasil passa por tratados de cooperação penal entre os dois países — um processo que existe formalmente, mas que é lento e depende de vontade política de ambos os lados. Sua experiência anterior com o sistema judicial boliviano — do qual saiu sem condenação mesmo após ir a Palmasola — sugere que Ybar conhece bem as brechas desse sistema e sabe como aproveitá-las.
A Imagem que o Traiu
A aparição de Ybar num post da campanha do filho gerou consequências que vão além do constrangimento político familiar. O que levou um homem com esse histórico — que já sobreviveu a uma prisão boliviana, voltou ao poder e depois se ocultou com relativa eficiência por anos — a permitir que sua imagem fosse publicada nas redes sociais desta forma ainda é uma questão em aberto. A confiança acumulada após tanto tempo sem ser alcançado pelo lado brasileiro pode ser a resposta - ou simplesmente o peso de querer marcar presença num momento importante para manter o poder político familiar.
O fato concreto é que o post circulou, o rosto foi reconhecido, e o arranjo cuidadosamente mantido em Puerto Quijarro ganhou visibilidade indesejada. O mandado de prisão brasileiro segue ativo, com validade até maio de 2031. Qualquer tentativa de cruzar a fronteira e pisar em solo brasileiro poderá resultar em sua prisão imediata.
Por ora, o ex-prefeito, ex-assembleísta e foragido da Justiça Federal — conhecido como "Cumpadre" pelos comparsas brasileiros e como "Babalu" pelas ruas de Puerto Quijarro — segue solto. Porém significativamente mais exposto do que gostaria.

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