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Violência gratuita ou construída?, por Rogério Fernandes Lemes
Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Rogério Fernandes Lemes (*)

Dentre as várias questões que movem as sociedades humanas, a violência é uma delas. O fenômeno não é novo ou característico da pós-modernidade ou modernidade líquida. A Bíblia apresenta o primeiro relato antropológico de fratricídio, entre Caim e Abel.


Segundo Weber, as ações das pessoas são orientadas por suas motivações, ou seja, aquilo que lhes dá sentido. Caim, após ter seu sacrifício rejeitado por Deus irou-se contra seu irmão e, motivado pelo ódio e inveja, cometeu o primeiro homicídio da humanidade. Por não aceitar ser rejeitado demonstra sua subjetividade, aquilo que nasceu em seu íntimo e que provocou conflitos relacionais.


A história da humanidade está escrita com letras de sangue e consolidada em ações violentas. Na obra Vigiar e Punir, de Foucault, o Estado reproduzia, no réu, mais violência do que a que ele havia cometido. Grupos etnocêntricos se impuseram sobre outros através da linguagem universal da violência. O homem enquanto lobo do próprio homem.


A antropologia moderna concebe o ser humano, ao nascer, como um Hard Disk, um disco rígido de computador (HD), onde são instalados softwares específicos para seu funcionamento.


Instituições permanentes como a Família, a Igreja, a Escola e o Estado são os responsáveis pelas primeiras instalações e deveriam emancipar o indivíduo social, intelectual, econômica, espiritual e politicamente. proporcionando-lhe desenvolvimento pleno enquanto ser humano.


O ser humano é o único Ser capaz de agredir seu semelhante sem motivos aparentes! Seria um olhar simplório e reducionista se pensássemos o fenômeno da violência sob este viés. Quando deslocamos o olhar para a dinâmica de outras culturas humanas encontramos elementos que nos permitem pensar o fenômeno da violência em nossa sociedade. Os rituais de passagem praticados entre grupos ameríndios ou nômades, por exemplo, envolvem a todos da comunidade conferindo-lhes um sentido que, por sua vez, motiva as ações dos indivíduos. Tanto meninos quanto meninas crescem sabendo que um dia irão contribuir para o bem estar de sua gente, de seu povo. O ápice simbólico se dá no ‘reconhecimento social’.


O status é um importante conceito para pensarmos as motivações subjetivas. A coerção social de Émile Durkheim é aquilo que consideramos enquanto valores e práticas comportamentais aceitáveis, e que exerce grande força sobre o indivíduo. Ao reproduzir os valores do grupo, o indivíduo tornar-se parte do grupo e, através do estranhamento do outro, legitima seus atos de violência.


Hoje quais são os valores transmitidos aos jovens? Quais atividades lhes conferem sentido? Quais suas motivações? Quem são os líderes que os inspiram? O que as crianças consomem nas programações de TV? Quais notícias são mais veiculadas na mídia? Quais as mensagens emitidas aos indivíduos? Eles possuem suporte para se desenvolverem e corresponderem às expectativas sociais? Qual a lógica das relações comerciais? Apenas alguns questionamentos para pensarmos o fenômeno da violência.


Segundo filósofos da USP a geração atual é mais antifilosófica que já existiu. A modernidade líquida de Bauman não tem referenciais sólidos ou coercitivos. O relativismo cultural cunha suas próprias verdades, incontestáveis. Então, quais os valores aceitáveis se o que realmente importa é o hedonismo?


O mercado cria a representação do concorrente, do inimigo que poderá tirar minha vaga. Se não conseguiu “se dar bem na vida” é porque não se esforçou; não fez por merecer, portanto, não deve fazer parte da sociedade, pelo fato de recusar-se a cultivar “valores aceitáveis”. Nesta perspectiva positivista não se leva em consideração a não distribuição equitativa das oportunidades.


A sociedade estarrecida pela violência clama por justiça, pedindo punições mais severas. Mas que justiça? Violência de quem? A resposta às perguntas que fazemos sobre o fenômeno da violência está na maneira como nos organizamos enquanto sociedade; nos valores que consideramos aceitáveis; na concepção que temos de nós mesmos no mundo; no sentido que atribuímos para nossa existência e na maneira como percebemos o outro.


Tais representações não se constroem subjetivamente, mas em comunidade, a partir do reconhecimento do outro, do respeito às diferenças nas relações sociais que desenvolvemos. Toda e qualquer ação de violência parte da premissa da negação do pensamento filosófico social, do argumento e da existência do outro como semelhante.

(*) É Bacharel em Ciências Sociais pela UFGD. e-Mail: lemesms@gmail.com






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