Os historiadores e a história de Dourados
Terça-feira, 17 de Julho de 2012
Jorge Eremites de Oliveira*
Os profissionais da História, quer dizer, os historiadores, estudam os seres humanos no tempo, tanto o passado quanto o presente. Assim o fazem com base em várias fontes sobre a presença humana em determinada região e temporalidade: registros escritos, fotografias, tradição oral, cultura material e tantas outras. Para isso utilizam técnicas, métodos e teorias das mais variadas e sofisticadas. Portanto, a História, aqui grafada com H maiúsculo, se refere ao campo de produção intelectual dos historiadores e abarca todas as histórias possíveis, no sentido de transcursos, trajetórias e processos individuais e coletivos. Além disso, a grande maioria desses profissionais não está a serviço de uma elite política e econômica regional, como que trabalhando a manipular informações para a manutenção de certos grupos no poder.
De todo modo, é interessante notar que em Dourados há pessoas que, apresentando-se como donas da verdade, pensam saber mais do ninguém sobre o processo sócio-histórico local. Imaginam que possuem competências para falar sobre todo tipo de assunto. Ledo engano. Na verdade, na História e em outras ciências sociais não há verdades absolutas, senão interpretações datadas sobre indivíduos, coletividades humanas e processos sócio-históricos. Portanto, uma perspectiva radicalmente positivista sobre fatos históricos não faz parte, salvo melhor juízo, da pauta de preocupações dos historiadores que vivem na região. E são muitos, pois somente a UFGD já formou centenas de graduados, especialistas e mestres em História; em breve formará os primeiros doutores na instituição.
Mas, afinal de contas, a quem interessaria saber, por exemplo, se foi ou não Marcelino Pires que teria doado terras para a criação do povoado que, posteriormente, daria origem a segunda maior cidade do estado? Ele teria comprado ou adquirido “terras devolutas” de quem? Aqui não havia seres humanos antes desses supostos “pioneiros”? Sabe-se que estas terras estavam habitadas desde muito tempo por outras pessoas, os indígenas. Sim, povos de língua guarani se estabeleceram em terras que hoje em dia compõem parte do estado desde, ao menos, por volta de 1.500 anos atrás. Então, se é a origem da propriedade privada que está em discussão a respeito dos primórdios de Dourados, consequentemente que o processo de esbulho sofrido pelos Guarani e Kaiowá que aqui estavam há mais tempo deveria vir à tona antes de qualquer debate mais acalorado.
A mesma discussão é válida, guardadas as devidas proporções, para a presença de comunidades remanescentes dos quilombos no estado, categoria jurídica constante na Carta Magna de 1988. Tais comunidades não têm a ver, necessariamente, com o passado distante e imemorial, colonial ou imperial, tampouco com representações historiográficas do tipo “Quilombo dos Palmares”. Refere-se, bem entendido, a um processo de autoidentificação. São grupos sociais cuja identidade étnica está normalmente vinculada à história das populações negras escravizadas no país. Soma-se a isso uma organização social particular que os distinguem do restante da sociedade nacional. Geralmente são “grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar”, conforme consta em documento produzido em 1994 pela ABA – Associação Brasileira de Antropologia. Não é por menos, portanto, que a comunidade da Picadinha, existente no município de Dourados, era chamada por muitos regionais de “os pretos da Picadinha”. Hoje em dia, contudo, esses “pretos” passaram a se autodenominar de outra maneira, valendo-se de uma categoria jurídica para reivindicar direitos junto ao Estado Brasileiro.
Portanto, falar mal dos historiadores e atacar publicamente a comunidade da Picadinha, que pouco ou nenhum acesso tem para se defender na imprensa, é reproduzir clichês e jargões sem qualquer fundamento antropológico, histórico e jurídico sobre o assunto.
(*) Doutor em História/Arqueologia pela PUCRS. Professor de Antropologia na Faculdade de Ciências Humanas da UFGD. Email: eremites@ufgd.edu.br.
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