Retidão interior
Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Vivaldo S. Melo (*)
Lí uma história em quadrinhos na qual o professor Pardal, famoso por descobertas bisonhas, ficou profundamente perturbado no dia em que inventou um aparelho capaz de mostrar os verdadeiros sentimentos das pessoas. Ainda bem que isto é ficção, não? Se o que é observável no homem, de uma forma geral, do ponto de vista da ética e da moral, já mostra a profundidade de nossa miserabilidade, imagina se o secreto e o invisível – na verdade a nossa vida real, o que verdadeiramente somos – tivesse visibilidade?
Já imaginaram se fossemos punidos pelo que internamente pensamos e desejamos? Num texto sobre o assunto o colega de ministério, Jocíder Corrêa Batista, lembra que não deveríamos ficar tranqüilos com o fato de podermos ocultar esse que é o nosso verdadeiro “eu”. Isto porque há um Deus que nos conhece. Essa proteção na verdade é frágil. Sua realidade deveria nos impulsionar ao cultivo cada vez maior das virtudes do coração, para sermos mais autênticos e verdadeiros aos olhos de Deus.
Nestes tempos em que os políticos que agiram errado em algum ou alguns momentos da vida pública têm seus nomes inseridos numa lista suja, é irônico pensarmos que grande parte dos que estão fora da lista é hipócrita sob essa análise. Na avaliação de Deus certamente poucos conseguiriam pleitear a condição de candidato. Como o nosso controle moral tem foco no agir e no não agir errado, e não nas motivações internas, provavelmente estaremos votando em muitos patifes, canalhas e mentirosos sem saber.
Na verdade se para Deus a honradez e retidão de um homem é medida pelo coração, ninguém escapa. O cristão que aponta o dedo para alguém que adulterou, por exemplo, sabe que do ponto de vista de Deus não é o ato que consolida essa transgressão. “Basta cobiçar”, lembra-nos Êxodo 20,17. Quem condena um homicida pelo ato cruel de tirar a vida de alguém, deve lembrar-se de Jesus Cristo dizendo que aquele que odeia o próximo sem motivo, já se faz homicida. Os exemplos que deixam evidente que o padrão de Deus é elevadíssimo são muitos.
E daí, devemos adotar uma postura fatalista do tipo “então é impossível”, logo temos o consentimento para pecar já que não conseguimos frear todos os maus desígnios que procedem do coração e que um ou outro vai acabar nos envolvendo? Certamente não! Do ponto de vista de Deus não temos permissão para deixar que pelo menos mentalmente alguma coisa suja, impura, desonesta e por aí vamos, ganhe forma em nossos pensamentos. Não podemos nos acomodar diante da guerra interna entre essas duas naturezas. Para sermos vitoriosos, contudo, só com uma força que não vem de nós. Ou seja, só permitindo que o próprio Deus habite em nós e nos capacite não apenas a não agirmos errado, mas também a não pensarmos o que não convém.
Essa concepção de que “o erro que se comete em pensamento não prejudica ninguém” é uma armadilha satânica. Prejudica a nós mesmos, pois cria problemas na nossa relação com Deus e com o próximo, inviabilizando a possibilidade de sermos aquilo que potencialmente poderíamos ser. Cuidemos, portanto, da nossa vida real, aquela que só Deus consegue ver!
(*) Jornalista e Pastor Presbiteriano em Dourados - www.vivaldos.com